
Lusinete Bispo Araújo foi aprovada em um concurso público da Polícia Militar do Tocantins em 2001, após uma trajetória como empregada doméstica, iniciada quando ela tinha apenas 12 anos. Apesar da rotina de trabalho e dos desafios, ela não desistiu. A militar estudava à noite e aos fins de semana para conquistar a aprovação.
"Decidi que precisaria passar em um concurso público para garantir minha estabilidade. Fiz um cursinho nos finais de semana e estudava sozinha em casa. Estudava à noite e, nos finais de semana, na folga do trabalho, intensificava os estudos", conta Lusinete.
Filha mais velha de sete irmãos, Lusinete começou a trabalhar aos 12 anos como babá e, depois, passou a atuar como empregada doméstica para ajudar nas despesas da família. Aos 17 anos, se mudou para Brasília, onde, durante seis anos, trabalhou como doméstica e morou na casa dos empregadores, conciliando as tarefas do dia a dia com os estudos.
A rotina exigia dedicação quase integral. Após o expediente, quando encerrava as atividades da casa, Lusinete encontrava tempo para estudar e concluir a formação escolar. Mesmo com pouco tempo disponível, mantinha o objetivo de conquistar uma profissão que garantisse estabilidade.
Ao retornar ao Tocantins, a preparação continuou. Morando em Palmas, ela frequentava cursinhos aos fins de semana e mantinha uma rotina de estudos individual para alcançar a aprovação.
Aos 26 anos, em 2001, após um longo período trabalhando em atividades domésticas, Lusinete passou no concurso da Polícia Militar do Tocantins e iniciou uma nova fase da vida.
"Só deixei essa profissão depois que ingressei no concurso da Polícia Militar", afirma.
Em 21 de abril deste ano, ela passou a ocupar o posto de 1ª tenente da Polícia Militar do Tocantins, cargo que simboliza uma trajetória construída entre dificuldades, disciplina e persistência.
A história da tenente também abre espaço para uma reflexão sobre a realidade histórica do trabalho doméstico no Brasil. Segundo a socióloga Solange Nascimento, entrevistada pela TV Anhanguera, o modelo em que mulheres deixam suas próprias famílias para morar na casa dos empregadores marcou a formação dessa relação de trabalho no país.
"Com relação à relação de trabalho, principalmente quando a gente fala do trabalho doméstico, ele está enraizado no período escravagista ainda", explica a socióloga.
Segundo ela, durante décadas, muitas meninas e mulheres passaram a viver nas residências onde trabalhavam, criando uma relação em que a vida pessoal e a atividade profissional ficavam misturadas.
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