Sexta-feira, agosto 19, 2022
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‘Meu pai, o genocida’: as filhas de torturadores na Argentina que romperam silêncio sobre ‘segredo familiar’

Um grupo de mulheres decidiu confrontar os pais e questionar o papel que desempenharam como membros das forças de segurança após o golpe de 1976.

 

“Pai, é verdade que você matou centenas de pessoas”? Certamente, esta não é uma pergunta que os filhos sentem a necessidade de fazer aos pais. Mas para um grupo de mulheres na Argentina, se tornou urgente e inevitável.

Os pais delas foram acusados ​​e, em muitos casos, condenados por alguns dos piores crimes cometidos na história recente do país — eles eram policiais e militares na época da ditadura.

Por quase sete anos, desde o golpe em 1976, os governos militares que controlaram a Argentina perseguiram seus oponentes políticos — comunistas, socialistas, estudantes, artistas, líderes sindicais… todos que consideravam uma ameaça — e sequestraram, torturaram e mataram milhares de cidadãos.

Analía com seu pai, Eduardo Emilio Kalinec — Foto: Analía Kalinec/Via BBC

Analía com seu pai, Eduardo Emilio Kalinec — Foto: Analía Kalinec/Via BBC

Esta é a história de duas filhas destes homens que, depois de quatro décadas, levantam publicamente suas vozes contra seus pais.

O temido Doutor Kanalía

Kalinec, de 40 anos, tem olhos claros, grandes e silenciosos. Ela se apresenta e conta sua história: “Sou professora, psicóloga, mãe de dois filhos… e também filha de um genocida.

Meu pai nasceu em 1952, no seio de uma família de classe média que tinha dificuldades econômicas. Ele abandonou os estudos no terceiro ano do ensino médio e decidiu entrar na Polícia Federal por volta de 1973, muito jovem.

Os Kalinec eram uma 'família típica', que se reunia para comer churrasco, ir ao clube da polícia e pescar — Foto: Analía Kalinec/Via BBC

Os Kalinec eram uma ‘família típica’, que se reunia para comer churrasco, ir ao clube da polícia e pescar — Foto: Analía Kalinec/Via BBC

Nasci na ditadura e sempre soube que meu pai era policial, não nos perguntávamos o que ele fazia ou deixava de fazer. Em casa, ele era um pai muito presente, mas nunca perguntei nada a ele.

Éramos uma ‘família típica’, que se reunia para comer churrasco, ir ao clube da polícia e pescar… Meu pai era o pai provedor, muito querido, muito respeitado dentro de casa.

Nós éramos quatro irmãs e vivíamos na nossa bolha. Depois, fomos nos casando e tendo filhos, como esperavam de nós. Fui a última das quatro, casei com apenas 22 anos… imagine!

Tanques e soldados em frente à Casa Rosada, em Buenos Aires, em 24 de março de 1976 — Foto: AFP/Via BBC

Tanques e soldados em frente à Casa Rosada, em Buenos Aires, em 24 de março de 1976 — Foto: AFP/Via BBC

E a vida era assim. Até o ano de 2005.

Era o último dia de agosto. Eu estava em casa quando recebi uma ligação. Era minha mãe. ‘Olha, não entre em pânico, seu pai está preso. Mas fique tranquila, ele vai sair (de lá)’.

Até essa ligação, eu nunca havia relacionado meu pai à ditadura, nem de longe… nem de longe.”

Eduardo Kalinec, então um policial jovem, era conhecido como o temido Doutor K — Foto: Analía Kalinec/Via BBC

Eduardo Kalinec, então um policial jovem, era conhecido como o temido Doutor K — Foto: Analía Kalinec/Via BBC

O comissário Eduardo Emilio Kalinec foi mantido em prisão preventiva. Ele havia sido mencionado no depoimento de testemunhas e denunciado por crimes graves: 181 vítimas, acusações de sequestro, tortura e assassinato. E tranquilizou a família dizendo que se tratava de uma jogada política contra ele.

“No dia seguinte àquela ligação, visitamos meu pai na prisão. E ele nos disse que não precisávamos acreditar em nada, que muitas mentiras seriam ditas, mas que ele não tinha nada a se arrepender. Que ele tinha saído para lutar em uma guerra e que isso estava acontecendo agora porque ‘revanchistas de esquerda’ chegaram ao poder (uma alusão ao governo do então presidente Néstor Kirchner).

Quando a junta militar assumiu o controle do país, as forças de segurança perseguiram aqueles que consideravam 'subversivos' — Foto: Getty Images/Via BBC

Quando a junta militar assumiu o controle do país, as forças de segurança perseguiram aqueles que consideravam ‘subversivos’ — Foto: Getty Images/Via BBC

Não entendi nada, para mim a ditadura era algo do passado. Eu estava totalmente alheia ao que estava acontecendo no país. Eu trabalhava em uma escola particular, costumava encontrar minhas irmãs no fim de semana, circulávamos entre famílias de colegas policiais do meu pai — e esse era meu círculo.

Eu não tinha acesso a muitas informações e tampouco tinha interesse. Meus pais também procuraram manter uma postura de neutralidade, ‘não nos metemos em política, somos apolíticos’.

Quando meu pai foi preso, comecei com muita dificuldade a colocar tudo dentro de um contexto. Os três primeiros anos foram de negação absoluta. De entender a ditadura, entender a luta das Mães e Avós (da Praça de Maio) e sentir empatia com elas, mas de dizer que meu pai não teve nada a ver com isso. Que foi um erro, que os julgamentos estavam indo bem, mas que estavam errados em relação a meu pai.

O centro clandestino de detenção El Olimpo, onde Kalinec torturava, funcionou por 17 meses — Foto: Valeria Perasso/Via BBC

O centro clandestino de detenção El Olimpo, onde Kalinec torturava, funcionou por 17 meses — Foto: Valeria Perasso/Via BBC

Até que, em 2008, eles levaram o caso dele a julgamento. E comecei a pensar que o que meu pai estava me dizendo não era bem verdade… “

Kalinec foi um dos 15 réus no primeiro julgamento do chamado Circuito ABO — sigla para os centros clandestinos de detenção Atlético, Banco e Olimpo, que operaram sucessivamente entre 1976 e 1979. Tanto os acusados quanto muitos presos foram transferidos de um centro para outro.

Estima-se que cerca de 500 presos tenham passado pelo centro de detenção clandestino El Olimpo, localizado no bairro de Flores — Foto: Arquivo Conadep/Via BBC

Estima-se que cerca de 500 presos tenham passado pelo centro de detenção clandestino El Olimpo, localizado no bairro de Flores — Foto: Arquivo Conadep/Via BBC

“Eu li o processo, que até aquele momento eu não tinha lido. Li com muita velocidade e pedindo para ‘que o nome dele não apareça, por favor, que o nome dele não apareça’. Não queria pular nenhuma linha para ter certeza de que não havia perdido nada, e de repente apareceu… Kalinec. Lembro claramente daquele momento.

Eu li os relatos das testemunhas, as descrições do que havia sido um campo de concentração. Criar todo esse mapa na minha cabeça e colocar meu pai dentro dele tornou tudo inaceitável e difícil.”

Para os sobreviventes que testemunharam, o pai de Analía era o “Doutor K”. Muitos torturadores usavam um pseudônimo para esconder sua verdadeira identidade.

A maioria dos presos que passaram pelo circuito ABO ainda está desaparecida — Foto: Arquivo Conadep/Via BBC

A maioria dos presos que passaram pelo circuito ABO ainda está desaparecida — Foto: Arquivo Conadep/Via BBC

“Eu sabia que chamavam ele de Doutor K porque ele havia me contado, mas depois negou. Uma vez perguntei por que, e ele me disse que era chamado de doutor porque sempre foi muito correto e parecia um advogado.

Para meu marido, ele deu outra explicação, disse que era por causa de um produto de limpeza que havia na época, a marca Doutor K: era ele quem fazia a limpeza. Terrível. E depois (eu descobri) outro fato não menos importante: ele era o doutor, e a sala de tortura era chamada de sala de cirurgia.

Em seguida, procurei respostas no único lugar que podia: dentro da minha própria família. E deparei com um pai que queria justificar o injustificável e que, quando o repreendi, dizendo ‘como você não fez nada, se há todos esses depoimentos no processo?’, ele acabou confirmando o que eu temia.

E admitiu sua participação.

Eduardo Emilio Kalinec durante o julgamento — ele foi condenado à prisão perpétua — Foto: CIJ/Via BBC

Eduardo Emilio Kalinec durante o julgamento — ele foi condenado à prisão perpétua — Foto: CIJ/Via BBC

Meu pai, hoje com 67 anos, fazia parte dos grupos que sequestravam e levavam as pessoas aos centros de detenção clandestinos. Ele tinha 24 ou 25 anos na ditadura. Não dava ordens, apenas executava.

E, mesmo assim, em alguns trechos dos depoimentos, os sobreviventes dizem que era conhecido como alguém muito cruel dentro dos campos de concentração. Eles temiam mais alguns repressores do que outros. E meu pai era um daqueles que metiam medo.”

As vozes das vítimas

Dezenas de testemunhas, em diferentes instâncias judiciais, apontaram Eduardo Kalinec como participante de interrogatórios e sessões de tortura nos centros clandestinos.

Quinze acusados no primeiro julgamento do circuito ABO — na foto, Kalinec olha suas anotações na segunda fileira, o segundo a partir da esquerda — Foto: CIJ/Via BBC

Quinze acusados no primeiro julgamento do circuito ABO — na foto, Kalinec olha suas anotações na segunda fileira, o segundo a partir da esquerda — Foto: CIJ/Via BBC

Oito delas durante o julgamento do circuito ABO, que o levou a ser condenado à prisão perpétua. Ele foi descrito como um jovem de cabelos escuros, atarracado, com pescoço grosso e voz aguda.

“Muito temido” e “muito cruel” com os presos, segundo os relatos.

Ana María Careaga tinha 16 anos e estava grávida de três meses quando foi levada. O Doutor K a chutava toda vez que a via no banheiro. Em uma ocasião, ele a repreendeu aos gritos por não dizer que estava grávida. “Você quer que eu abra suas pernas e te faça abortar?”

Miguel D’Agostino o identificou como um dos três homens que o submeteram a cinco dias de interrogatório com choque elétrico na “sala de operações”.

Delia Barrera também foi vítima de tortura durante os 92 dias em que ficou detida em El Atlético. Era 1977, e ela tinha 22 anos.

Paula soube que o pai trabalhava para serviços de inteligência quando tinha 14 anos — Foto: Paula / Historias Desobedientes

Paula soube que o pai trabalhava para serviços de inteligência quando tinha 14 anos — Foto: Paula / Historias Desobedientes

“Estava encapuzada, havia muitas vozes ao meu redor. Até que uma voz diz ‘comecem’, e começaram a me bater. Me arrastaram pelo cabelo para o que chamavam de sala de operações. Havia três salas, e se ouvia quando torturavam outras pessoas na sala ao lado”, contou Barrera à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.

“Eles me obrigaram a me despir. Me amarraram a uma cama de metal, abriram minhas pernas, prenderam um cabo no polegar do meu pé esquerdo e me fizeram ouvir um barulho: ‘shhhhh’. E me disseram: ‘Você já conhece? Bem, agora vocês vão se conhecer’. E começaram os choques elétricos.”

“Me acusaram de colocar bombas no departamento de polícia, o que eu nunca fiz. Me pediram nomes de colegas de militância. E a tortura não parava… “

Após uma sessão de tortura, ela conheceu Kalinec.

“Eles me bateram muito e me levaram para a enfermaria, um repressor a quem chamavam de Doutor K me interrogou, então pensei: ‘Ah, um médico’.”

“Ele disse que eu tinha quebrado as costelas, mas que não iria me enfaixar porque eu podia me enforcar com as ataduras. Consegui dar uma espiada, o capuz estava meio levantado e nunca esqueci o rosto de Kalinec. No julgamento, estava com gel no cabelo, mas ainda tinha o bigode. Quando os juízes me perguntaram se eu reconhecia alguém, eu disse: ‘Aí está o Doutor K, Kalinec’. Eu não poderia esquecer Kalinec.”

Soldados revistam um civil em Buenos Aires, em 1977 — Foto: Getty Images/Via BBC

Soldados revistam um civil em Buenos Aires, em 1977 — Foto: Getty Images/Via BBC

Delia foi libertada e viveu para contar esta história, com sequelas físicas e mentais. Traumas do choque elétrico, uma costela mal cicatrizada, repetidas tentativas de suicídio.

Outros não tiveram a mesma sorte. Entre eles, seu marido Hugo Alberto Scutari. Ela não voltou a vê-lo desde que dividiram uma cela por algumas semanas no El Atlético. Hoje, ele é um dos presos políticos do regime desaparecidos: as organizações de direitos humanos estimam que são cerca de 30 mil, embora não haja um consenso sobre o número exato.

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