Covaxin que o governo comprou, com suspeita de superfaturamento, ainda não chegou ao Brasil (foto: DIBYANGSHU SARKAR / AFP)

Em terra de cego, quem tem olho é rei. No País da picaretagem, ser honesto é motivo de orgulho

Jair Bolsonaro, o verdugo do Planalto, se elegeu prometendo acabar com a corrupção e adotar uma política econômica liberal. Extenuado pelos anos de cleptocracia lulopetista, o eleitor médio – inclusive eu! – acreditou e lhe deu a chance de mudar o País.

Bastaram poucos meses, contudo, para a primeira bandeira cair por terra: o combate à corrupção deu lugar à guerra pessoal com Sergio Moro; ao conluio de ocasião com o STF, em busca da proteção do pimpolho das rachadinhas; ao fim melancólico da Operação Lava-Jato, decretado pelo Procurador-Geral, Augusto Aras; à sociedade com o Centrão e às novas velhas amizades com Collor, Ciro Nogueira, Arthur Lira e outros da mesma linhagem, se é que me entendem.
A despeito de tudo isso e muito mais, como Queiroz, ‘micheques’, rachadinhas, mansão de seis milhões de reais, funcionários fantasmas – apenas para ficar no âmbito pessoal e familiar -, e picanha, chiclete, leite condensado, cerveja – aí sim, na esfera governamental -, superfaturados, a crença em um presidente honesto e um governo sem corrupção só é levada a sério, ainda, pelos bolsonáticos. Até porque, faltava o ‘batom na cueca’. Ao que parece, não falta mais.
Se na economia o engodo é mais do que claro e evidente, já que não vimos nada de privatizações, reformas administrativa e tributária, desburocratização, abertura comercial, responsabilidade fiscal e outras promessas do Posto Ipiranga, a crença na honestidade do devoto da cloroquina e seu desgoverno homicida ainda resistia pela falta de um ‘escândalo’ de fácil compreensão. Mas a notícia dessa terça-feira (22/6) sobre o superfaturamento na compra de vacinas pelo governo federal, tem tudo para colocar uma pá de cal sobre o mito da honestidade… do Mito!
O mesmo governo que recusou 70 milhões de doses de vacinas da Pfizer pela metade do preço pago por outros países como Estados Unidos e Israel, comprou de ‘forma temerária’, segundo a Procuradoria da República do Distrito Federal, 20 milhões de doses do imunizante indiano Covaxin, por inacreditáveis 1,6 bilhão de reais, valor 1.000% superior ao listado pela empresa e dramaticamente maior que o de outras vacinas mais ‘famosas’ e disponíveis no mercado.
Pior. O deputado Ricardo Barros, líder do governo na Câmara e aliado íntimo do maníaco do tratamento precoce, foi responsável por uma emenda à MP 1026/21 que facilitou o suposto cambalacho. Mas não só: a empresa que fez a importação é suspeita de fraude. Além disso, o servidor do Ministério da Saúde Luís Ricardo Fernandes Miranda, em depoimento ao Ministério Público Federal, disse ter sofrido ‘pressão atípica’ para garantir a importação do imunizante.

Indícios claros de problemas, como visto, é o que não faltam por aí. A depender do prosseguimento do caso, será divertido assistir à malta zurrar: ‘e o Lula? E o PT?’. Bem como estes últimos zurravam: ‘e o Aécio? E o PSDB?’. Mas é assim mesmo. Gado bom é gado manso. Vale tudo para defender o político corrupto de estimação. Inclusive ser roubado e agradecer na ‘língua pátria’: mú.