Sexta-feira, agosto 19, 2022
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Aluna que lutou com assassino de escola em Suzano diz que ainda tem pesadelos e pretende estudar fora do Brasil

A estudante Rhyllary Barbosa dos Santos, de 16 anos, chegou a ser chamada de ser heroína depois de lutar com um dos assassinos do massacre na Escola Estadual Professor Raul Brasil, em Suzano, em março deste ano. Mas ela nunca se sentiu assim.

Sua vida foi transformada violentamente em 2019 pelo episódio, que deixou marcas inclusive em forma de pesadelos, mas com ajuda e suporte da família ela já volta a ter sonhos típicos de uma adolescente de sua idade e projeta coisas boas para 2020.

“Estou focada em terminar os estudos e começar uma faculdade. Os meus projetos são fazer um curso de direito, me tornar uma delegada, quem sabe uma juíza”, disse em entrevista ao G1. O foco em um curso de inglês que permita estudar fora do país faz parte dos planos.”Pretendo sair, não vou confirmar se quero sair para ficar ou só para estudar e voltar. O meu projeto é ir pra Nova Iorque, ver e conhecer coisas novas, estudar, e fazer o justo.”

Pesadelos

Os efeitos psicológicos da violência que sofreu naquela manhã de março refletiram bastante na rotina da adolescente. “Só queríamos estudar, mas não foi possível naquele dia, infelizmente.”

Rhyllary revelou que passou a ter pesadelos com o caso. “Eu tinha parado com os sonhos, pesadelos na verdade, mas isso voltou. A paralisia do sono também tinha parado, mas voltou. Minha irmã fica assustada. Meu corpo desliga, mas minha mente continua rodando. Por isso eu acordo exausta, com dor de cabeça. É uma coisa embaraçosa para mim.”

Um pesadelo que ainda a assusta é o de um novo ataque. “Eu sonhei que um grupo de cinco homens entravam armados na escola, com metralhadoras, e estavam vestidos exatamente como no ataque de Columbine. Eu acordei assustada, suando, tremendo. Eles sorriam, andavam e brincavam com as metralhadoras e estavam prestes a entrar numa sala e fazer um massacre.”

Rhyllary disse que não deixou a essência para trás após o trauma, mas percebeu uma mudança em seu comportamento. “Eu senti que me trouxe uma maturidade maior sobre as coisas, sobre minha forma de pensar e de agir também. Desde o que aconteceu, eu passei por alguns processos, alguns ruins, alguns bons.”

Ela chegou a ter desentendimentos com sua mãe por não se abrir, mas quando as coisas se acertaram a força da família foi fundamental para seguir em frente.

“Eu fiquei um tempo meio que em conflito com minha mãe, porque tudo mudou, a forma de pensar fez aquela reviravolta na minha vida e minha mãe queria me entender, mas eu não queria falar pra ela, eu queria guardar pra mim. Ela queria conversar e eu não queria falar. Mas a gente acabou acertando, a gente acabou ficando bem.”

Volta à escola

A volta aos estudos não foi fácil para Rhyllary. “Para mim não foi tão tranquila assim, mas a gente não pode correr, virar as costas. Então, por mais que tenha sido difícil a minha volta, eu voltei, confortei meus amigos, tentei buscar conforto neles também.”

“Eu não queria ir na diretoria, mas tinha de ir para buscar meus materiais. E o filme rodou novamente. Foi difícil. Eu tenho certeza que foi difícil até para os professores. Eu não conseguia me concentrar, minhas notas caíram até em matérias que eu me identifico. Eu tentava me concentrar, eu tentava prestar atenção, mas ao mesmo tempo eu pensava em tudo, eu pensava que a qualquer momento alguém poderia entrar e fazer tudo de novo. Isso me atrapalhou muito.”

Uma etapa difícil foi revisitar o local onde lutou com o invasor. “Foi uma sensação ruim, porque eu não tenho só lembranças ruins, eu tenho ótimas lembranças da tia Eliana, do Kaio, dos meus amigos [vítimas do ataque]. Eu saber que voltei para um ambiente que eles não vão estar mais por causa de um ocorrido assim mexe com a cabeça da gente.”

Sete meses após o ataque, a escola fechou para reforma e os alunos foram transferidos para ter aulas no prédio de uma faculdade próxima. A mudança de local foi significativa para ajudar a sair da fase ruim.

“Quando saí do Raul foi que comecei a sentir que estava começando a ficar em paz. Por mais que eu me assuste, por mais que às vezes eu tenha, entre aspas, algum tipo de ‘surto’ sobre o que aconteceu. Depois que eu saí é que eu consegui respirar um pouco, foi que eu fiquei em paz com minha família também, que eu vi que minha família também está em paz. Estou um pouco mais aliviada.”

Esperança no futuro

Rhyllary explicou que buscou na espiritualidade forças para continuar a viver. “Eu sou uma pessoa que acredita muito em Deus, tenho muita fé. Eu busquei primeiramente força Nele e depois eu busquei forças em mim. Não me deixei cair, não tentei me abater, mas ninguém é de ferro. Eu tive meus momento onde eu falava ‘Já deu pra mim, não consigo mais andar, aqui já era, acabou’. Passei por uma fase muito difícil, mas a minha família me apoiou, meus amigo me apoiaram.”

Além da faculdade de direito e a saída do país, ela também cogita fazer faculdade de educação física para se tornar professora de jiu jítsu.

Sobre o que imagina para 2020, a estudante revela olhar o futuro com bons olhos.

“O que esperar do futuro? Que eu me torne uma grande pessoa, um ser humano melhor. Que eu tenha uma bela carreira, uma bela vida, porque a gente vive tão pouco tempo, né? Então a gente precisa aproveitar cada momento disso. 2019 foi o ano que veio pra realmente falar que a vida é um sopro, e você pode estar feliz, estar alegre hoje, mas amanhã você pode simplesmente morrer. A gente tem de aproveitar e estar atento a tudo.”

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